Voz do Deserto Ouve-se
O portugueses só falam de Deus na morte. Triste vida.
sexta-feira, janeiro 30, 2004
quinta-feira, janeiro 29, 2004
Ruminaçœs Digitais Fora aqueles que o fazem por motivos premeditados, manter um blog é uma actividade que oscila entre o prazer de um passatempo e a paciência de um cultivo. Torna-se comum encontrarmo-nos a pensar num tema, a ler uma ideia ou a trabalhar uma frase para estas notas acumuladas semanalmente. Pára-se o resto para escrever as fugidias palavras que receamos perder, finge-se atenção enquanto se lapida mentalmente o post de amanhã. Outras vezes, simplesmente, falta o motivo para continuar. Porque terminam metade dos blogs ao fim de um semestre? Não sei, mas talvez seja consequência da tensão entre o acto narcísico de expor aquilo que achamos interessante, estético (e que nos espelha para os outros) e a autocrítica sobre essa exposição. Uma prolonga (por vezes penosamente) o esforço enquanto outra questiona a validade do mesmo. Quando não há tensão ou o blog termina ou prossegue soterrando aquilo que merece a pena ser visto, lido, relembrado. Neste aspecto suponho ser semelhante ao ser-se escritor, que como alguém disse não é por aprender palavras novas que estes se fazem, é por haver coisas a dizer.
quarta-feira, janeiro 28, 2004
A Espuma dos Dias Em ambos os casos aquele insuportável sentimento de fragilidade, aquela consciência de que para morrer basta efectivamente estar vivo, aquela interrogação perante o grande absurdo, aquele bradar aos céus.
terça-feira, janeiro 27, 2004
ABRUPTO Com vontade de fugir desta insuportável mediocridade. Desta falta de respeito pelos mortos. Desta falta de dignidade. Desta falta de ar.
little black spot não, não, não me ficou marcado o célebre «E.T. phone home...». foi depois, no limite do (in)suportável, que se constituiu a minha memória do filme. se me perguntarem alguma vez sobre a minha infância, bastar-me-á apenas dizer que foi assim:
«Elliot - Stay...
E.T. - Come...»
«Elliot - Stay...
E.T. - Come...»
Outro, eu Brutal Não se sabe ainda se Féher, jogador de futebol do Benfica, já recuperou a consciência. Aparentemente, foi vítima de paragem cardíaca prolongada. A queda súbita de um atleta de alta competição, inanimado, em campo, depois de um sorriso, faz lembrar, brutalmente, a precariedade da vida.
segunda-feira, janeiro 26, 2004
A Natureza do Mal Miklos Feher
Um rapaz louro da Hungria que jogava futebol. Um rapaz que marcava golos. Um rapaz que sorria, no momento preciso em que qualquer coisa, incrivelmente necessária, dentro de si se desligou. Um rapaz a morrer em directo em frente a uma câmara.
Era suplente. Entrou perto do fim. Fintou quanto pôde e fez uma falta para ganhar tempo. Mas a morte não se enganou.
Um rapaz louro da Hungria que jogava futebol. Um rapaz que marcava golos. Um rapaz que sorria, no momento preciso em que qualquer coisa, incrivelmente necessária, dentro de si se desligou. Um rapaz a morrer em directo em frente a uma câmara.
Era suplente. Entrou perto do fim. Fintou quanto pôde e fez uma falta para ganhar tempo. Mas a morte não se enganou.
Ponto & Vírgula Amanhã faremos a elegia dos mortos nos atentados, nos crimes de faca e alguidar, nas incapacidades da medicina, nos becos e estradas afiadas como lâminas, nas rugas que contam mais histórias que a maioria das enciclopédias.
Hoje todas as elegias vão para Miklos Feher, que tinha 24 anos para trás e uns bons 50 pela frente. Hoje choramos este impressionante adeus. Os outros, amanhã.
Hoje todas as elegias vão para Miklos Feher, que tinha 24 anos para trás e uns bons 50 pela frente. Hoje choramos este impressionante adeus. Os outros, amanhã.
sexta-feira, janeiro 23, 2004
Outro, eu Curiosidade No momento em que, todos os dias, nos chegam informações (e imagens) espantosas de Marte, pressinto - sem qualquer tipo de conhecimento de causa, directo ou indirecto - que está em curso uma fortíssima (e surda) competição nos bastidores do palco científico. A Agência Espacial Europeia (ESA) e a NASA estão, claramente, em despique nesta batalha pela conquista do conhecimento de Marte. Depois do fiasco da Beagle 2, os americanos pareceram ganhar vantagem com as extraordinárias fotografias captadas pelo Spirit. De ontem para hoje deu-se um (pelo menos aparente) volte-face: o Spirit, com uma avaria grave, pode estar em risco e a ESA encontra água no pólo sul de Marte. O que eu não dava para poder cheirar o ambiente de um e doutro lado.
Terras do Nunca Vermelho vivo
A sonda europeia Mars Express encontrou água em Marte.
As grandes notícias escrevem-se em poucas linhas.
A sonda europeia Mars Express encontrou água em Marte.
As grandes notícias escrevem-se em poucas linhas.
Flor de Obsessão CLICHÉS: Ouço alguém insurgir-se contra as ideias feitas. Contra os clichés. Não percebo tamanho desespero, tamanha fúria contra o óbvio. Seremos forçados a debitar Espinosa em todas as ocasiões? Não. Há ideias feitas lindas, profundas, irrefutáveis. Quem se incomoda com as ideias feitas, quem reage repulsivamente à banalidade, está incomodado e inquieto com outra coisa. Com a sua própria incapacidade de pensar.
quinta-feira, janeiro 22, 2004
quarta-feira, janeiro 21, 2004
Rua da Judiaria Convém referir que, tal como acontece com o cristianismo, existem no judaísmo diversas correntes teológicas e movimentos religiosos com interpretações divergentes, pelo que este “credo” funciona apenas como uma amostra genérica daquilo em que os judeus acreditam. A este respeito, há um velho provérbio hebraico que diz “onde há dois judeus tem de haver duas sinagogas”.
Terras do Nunca A versão brasileira do Aviz parou no dia 17, indiferente à original, que prosseguiu caminho.
Às vezes, as máquinas são assim. Comovem-se com os passos do criador, também elas partem atrás do Cruzeiro do Sul.
Às vezes, as máquinas são assim. Comovem-se com os passos do criador, também elas partem atrás do Cruzeiro do Sul.
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Exacto Confundem-me as suas contradições; nas artes o sentido do belo, nas ciências a antecipação do conhecimento, no mercado as oportunidades inesgotáveis, na democracia a expressão das desigualdades, e, contudo, por detrás do lustro antevejo a sombra de um monstro voraz. E tudo isto, das cataratas do Niagara às colinas de São Francisco, das Montanhas Rochosas ao pitoresco de New Orleans, só foi possível porque se acreditou no indivíduo, porque o esforço foi traduzido em capital. E aqui mora a contradição, pois a cura já é doença, o capital gera poder e este corrompe o discernimento, atenuando a necessidade de confrontar decisões com valores.
Memória Inventada Olhos no olho, o primeiro encontro face a face que tive no regresso à América foi com uma máquina fotográfica, que me "fichou". Afinal, o big brother é um tipo de fraca figura que até precisa de tripé para pedir meças. Antes do tête à tête convidaram-me a digitalizar as minhas impressões digitais numa máquina pós moderna. Podia vociferar agora contra os porcos imperialistas, mas a coisa não me incomodou muito; foi até rápida, indolor e provavelmente útil. Por regra, as minhas impressões digitais vão pelo ralo da banheira no banho do corpo que amo, gozam de uma ilusão de imortalidade quando mudo o pneu do carro ou recoloco nas rodas dentadas a corrente da bicicleta, perdem-se na multidão das notas de um dólar. Se alguém as quer preservar, que lhes dê bom proveito. Dito isto, é claro que quando o ciclope bonsai me galava pensei em Alcácer do Sal, puxei ao máximo o negro dos olhos e fiz um ar de terrorista.
segunda-feira, janeiro 12, 2004
microcosmos Um beijo pode ser tanta coisa, pode querer dizer e mostrar tanto. No entanto, quando a decisão de um beijo, não passa pelo alinhamento das trajectórias dos olhares dos intervenientes, e pela respectiva decisão em conjunto, mas apenas pela sensação comum do movimento da cabeça do outro e cujos olhares divagam pelo mundo em redor, até se fecharem quando se dá o contacto... muito está perdido.
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